Lua de Fel no Supremo
Publicado por André Lenart em Agosto 19, 2008
Tenho de dar o braço a torcer. Quando o então Procurador Regional da República da 2ª Região,Joaquim Barbosa foi indicado para um assento no STF, em 2003, fiquei com os dois pés atrás. Primeiro, porque o nome do Ministro veio à tona associado à etiqueta de “cotista”, e sempre me pareceu despropositado que alguém ocupasse um cargo público tão altaneiro não em função do mérito, mas devido à cor da pele. Segundo, porque a indicação provinha de um Governo cuja visão político-criminal é, na mais amigável das perspectivas, pior do que péssima. Um ex-Ministro da Justiça chegou a dizer que as penas eram muito elevadas e que o tratamento carcerário, muito duro. “Mais um partidário do garantismo à brasileira”, segredei aos meus botões, amaldiçoando a aposentadoria precoce do venerando Ministro Moreira Alves. O tempo revelou a extensão do equívoco. Numa Corte que pouca atenção dá às exigências de prevenção geral e se mostra perigosamente receptiva às idéias liberais “xiitas”, de há muito banidas da Europa e dos EUA, o Min. Barbosa se firmou como ponto de equilíbrio na 2ª Turma, investindo-se num papel que o próprio Min. Moreira Alves com tanto brilhou exercera. Em incontáveis oportunidades, Barbosa ajudou decisivamente a refrear os impulsos garantistas mais radicais. Em meio às contradições que caracterizam a jurisprudência do STF, talvez ele seja o único que renuncie aos contorcionismos retóricos e aceite explicitamente a gravidade do fato em concreto como fundamento idôneo da prisão preventiva – a Ministra Carmen Lúcia parece aproximar-se dessa linha, especialmente quando se trata de crimes sexuais contra crianças. E seu gabinete é o responsável pelo bom andamento de uma gama de processos criminais. Para ficar no mais famoso: não creio que o “Mensalão” desse dois passos à frente, sem o empenho pessoal do Ministro e de seus assessores.
Ainda assim, não foi sem surpresa que li a notícia do inusitado bate-boca que teria ocorrido na tarde da última quarta-feira, nas dependência da Corte. Barbosa teria interpelado o Min. Eros Grau, que, dias antes, mandara soltar o último dos presos na operação Satiagraha: Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom é acusado de corrupção ativa por supostamente oferecer propina a um delegado federal a fim de desviar as investigações do nome de Daniel Dantas. Essa decisão vai “prejudicar o povo brasileiro”, teria dardejado o Min. Joaquim. Em resposta, o Min. Eros Grau o teria chamado de covarde. A altercação teria sido testemunhada por quatro ministros – Gilmar Mendes, César Peluso, Carlos Alberto Direito e Carlos Brito – e pelo procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza.
Não sei se os fatos se deram como descritos pela imprensa. É possível que haja algum exagero no relato. Não sei nem se a notícia é verdadeira. Caso seja , terá o mérito de mostrar que os arroubos liberais do Supremo, que tanto desagradam à Magistratura de 1ª instância e à população em geral, começam a provocar inquietação no seio do próprio Tribunal.
Esta entrada foi publicada em Agosto 19, 2008 às 10:59 am e é arquivado em Notícias. Tagged: Cármen Lúcia, Daniel Dantas, Eros Grau, Humberto Braz, Joaquim Barbosa, PPrev, prisão preventiva, STF. Você pode seguir qualquer respostas para esta entrada através de RSS 2.0 feed. Você pode deixe uma resposta, ou trackback do seu próprio site.
Emílio disse
Parabéns pelo blog!
Excelente!
Igor disse
Olá Nobre Juiz, venho acompanhando seu blog. Muito bem escrito e com idéias deixadas de forma clara. Mas ouso discordar de alguns posicionamentos um tanto (na minha humilde opinião) extremos. Não acredito que a prisão seja o único fim buscado pelo processo criminal. Ainda mais quando se trata de medida cautelar. Esquece Vossa Excelência das armações, dos motivos subjetivos que levam alguns operadores do direito a imputar fatos para justificarem “suas operações”. Não me refiro aos figurões noticiados diariamente, mas ao “povão”, que realmente ficam presos. As vezes acho que nossa corte suprema é sim muito corajosa quando de seus julgamentos garantistas. Posição que levarei para minha vida quando me tornar um magistrado. Apenas prender é satisfazer a mídia, uma parcela um tanto ignorante de nossa população, que da gorjeta para alguns corruptos, fura fila, excede a velocidade, bate na esposa e ainda vai na porta da delegacia chamar algum detido de bandido. Aprisão em alguns casos, como tenho visto na minha militância me leva ao verdadeiro jargão do “olho por olho”. O segredo é conhecer a realidade de nossas delegacias, prisões, e sempre, atentar para a conduta fática do acusado, verificar se aquela ação ou omissão típica é contumaz em sua vida, ou um fato isolado, que pode nem mesmo ter sido praticado por ele. Parabéns Doutor. E continuarei lendo diariamente este Blog, e enriquecendo meu conhecimento com estupendo saber de Vossa Excelência. Ousei discoradar, é o preço da liberdade. Parabéns.