Reserva de Justiça

Um olhar realista sobre o Processo Penal

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O Rio de Janeiro é só Paz

Publicado por André Lenart em Agosto 10, 2008

As manchetes de alguns dos principais jornais do Grande Rio [i] mostram que o final de semana foi bem tranqüilo. Não entendo por que tem gente que fica gritando por aí, reclamando da segurança pública, protestando por penas mais elevadas, tratamento carcerário mais rigoroso. São mesmo uns ignorantes, uns fascistas de marca maior…

Olhem só como tudo anda bem:

  • Tráfico monta cursos para jovens integrantes de quadrilhas aprenderem técnicas de guerrilha e uso de armas
  • Tiroteio causa pânico no Niterói Shopping

Uma tentativa de assalto agora há pouco, às 13h45m, na Academia Vida Útil, no terceiro piso do Niterói Shopping, causou pânico entre os freqüentadores do centro comercial que saíram em correria pelas escadas rolantes depois que se ouviram tiros e um homem gritava “socorro, ele quer me matar”.

Dois ladrões tentaram roubar o caixa da academia de ginástica, mas um instrutor reagiu tomando a arma do ladrão, que foi ferido no braço. O cúmplice fugiu, provavelmente pela garagem do quarto piso, gritando por socorro em meio às pessoas que tentavam se proteger de novos tiros, se abrigando atrás dos balcões das lojas. Segundo policiais da 76ª DP, este foi o segundo tiroteio ocorrido hoje na Rua da Conceição.

Em um outro assalto, no Largo da Batalha, ladrões roubaram R$ 10 mil e o relógio de ouro de um comerciante que havia sacado o dinheiro na agência do HSBC da estrada Caetano Monteiro, nesta manhã. A 79ª DP registrou.

  • Casa é assaltada e família feita refém na Região Oceânica de Niterói
  • Mais um arrastão dentro de ônibus em Niterói
  • Ousadia sem limites: grupos paramilitares fecham ruas com cancelas, cercam calçadas com correntes e chegaram a fazer rodízio de carros em circulação nos fins de semana em Honório Gurgel.

Rodízio de autos? Puxa vida! Pensava que isso fosse só em São Paulo…


[i] Foram consultadas as versões disponíveis na Internet de O Globo, O Dia e O Fluminense.

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A Guerra do Rio

Publicado por André Lenart em Agosto 7, 2008

Em seu último podcast, o colunista Diogo Mainardi afirma que se mata proporcionalmente mais no Estado do Rio de Janeiro do que no Iraque. Entre civis e militares, a guerra alimentada pela rivalidade tribal no convulsionado país do oriente próximo ceifou 3.458 vidas, entre janeiro e maio deste ano. No mesmo período, a Secretaria de Segurança Pública do RJ registrou 2.441 homicídios dolosos, 87 latrocínios, 17 lesões corporais seguidas de morte e 6 óbitos de policiais em serviço – num total de 2.551 mortes [i] / [ii].

Ele tem toda razão: nosso Estado realmente é mais violento. E é fácil prová-lo: a população do Iraque é estimada em 28.221.181 pessoas ( julho de 2008 ) espalhadas num território de 437.072 km2 [iii] . O Rio conta hoje com 14.387.225 habitantes em 43.909 km2. Se a população do Rio de Janeiro fosse igual à do Iraque, o número de homicídios seria de 5.004, o que significa dizer que proporcionalmente nossa taxa de mortes violentas supera em aproximadamente 45% o número de mortes na nação do ex-ditador Saddam Hussein.

Intelectuais dos direitos humanos, juristas e poetas talvez não saibam, mas o Rio já está em guerra. À janela, posso ouvir o barulho dos rojões: são os “meninos da boca” avisando aos viciados a chegada de uma nova partida de drogas. Volta e meia o barulho se repete. Os relatos de extorsões via telefone, seqüestros-relâmpagos, “saidinhas de banco”, furtos de autos, roubos à mão armada, tiroteios em vias-expressas, “arrastões” e “bloqueios” em vias públicas, bem como de balas perdidas são diários. É impossível abrir a página de um jornal sem deparar com o relato de um caso de violência. Para ficar num singelo exemplo, tomemos a edição eletrônica de hoje do jornal O Dia:

  • CPI das Milícias – grupos crescem com apoio de delegacias e batalhões locais
  • Hospital é atingido por balas perdidas – médico fica ferido por estilhaços de balas durante confronto entre bandidos e PMs
  • PM e menor mortos em delegacia – assaltante algemado toma arma de cabo e atira nele, que reage e mato o jovem, mas não resiste
  • Cemitério clandestino – dois corpos em reservatório da Cedae
  • Caso providência – Justiça Militar aceita denúncia contra 11 militares acusados de entregar três jovens a traficantes
  • Homem pede carona e mata conhecido para roubar moto

O insólito é que não se vê reação alguma nem das autoridades, nem do povo. Não se fala em elevar a pena para crimes violentos, nem em tornar mais rigoroso o regime prisional. Não se fala em reduzir benesses tipicamente tupiniquins, como as absurdas autorizações de saída para condenados, que a cada feriado nacional põem em pânico os cidadãos de bem – esses infelizes que teimam em trabalhar honestamente e em pagar impostos. Não se fala em abolir o indecoroso “indulto natalino” – essa desgraça que todos os anos os Presidentes da República insistem em fazer publicar, com uma eloqüência que beira a demagogia. Não se fala em remunerar decentemente o policial, nem em fortalecer as instituições incumbidas do combate à criminalidade, dotando-as de estrutura apropriada.  Ao contrário, o que se discute no momento é o amordaçamento dos juízes de 1ª instância – privando-os de sua independência funcional -, a restrição à utilização já bastante acanhada da prisão preventiva, a limitação radical à escuta telefônica, a criação de “espaços livres de jurisdição” imunes à busca e apreensão autorizada judicialmente, a reforma da “Lei de Abuso de Autoridade”, construindo tipos penais excessivamente vagos e indefinidos – num inequívoco atentado ao princípio constitucional da reserva legal (nullum crimen nulla poena sine lege certa).

Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália, Rússia: nenhum país do mundo conseguiu baixar os níveis de criminalidade tornando mais suave a legislação criminal, proibindo os juízes de mandar prender ou destituindo a polícia de poderosas ferramentas investigatórias, como a interceptação telefônica. Toda experiência bem-sucedida revela a mesma terapia de choque: endurecimento do castigo, repressão cada vez mais qualificada tecnologicamente e inocuização dos criminosos incorrigíveis.

Pelo andar da carruagem, o diagnóstico não poderia ser mais melancólico: o brasileiro sofre de atrofia do instinto de autopreservação e de um doentio impulso masoquista que o faz gostar de ser flagelado. Enquanto não aparece a cura para esses males, rezemos  em coro por mais um dia longe de balas perdidas e do horror que nos cerca.


[i] Disponível em http://www.veja.com.br .

[ii] É provável que as estatísticas iraquianas sejam mais confiáveis do que as nossas. Basta lembrar que a aparição de corpos despedaçados ou com visíveis sinais de violência é quase sempre registrada sob o eufemismo de “encontro” ou “remoção” de cadáver, e não como homicídio; só após a expedição do Auto de Exame Cadavérico pelo IML, dá-se o aditamento do Registro de Ocorrência, fazendo-se menção à causa mortis e à tipificação legal

[iii] Cf. The World Factbook, publicação da CIA (http://www.cia.org).

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As Algemas do Cacciola e a Guerra no Rio

Publicado por André Lenart em Julho 30, 2008

Morreu hoje à tarde a corretora de seguros Adriane Uszko, 40, baleada no rosto na noite de segunda-feira, num acesso ao Elevado da Perimetral, quase em frente à Superintendência da Polícia Federal. O projétil atingiu a cabeça de Adriane, causando lesões no globo ocular direito, no crânio e na face. O “arrastão” já havia vitimado o sargento PM Luís Fernando Marques da Silva, que bravamente trocara tiros com os bandidos. Outras três pessoas escaparam por um triz da morte, com alguns ferimentos. Um dos marginais foi baleado, mas sobreviveu. Não se preocupem: com HC, progressão de regime e livramento condicional, logo estará são e salvo de volta às ruas.

Esse pedaço da Zona Portuária está se tornando uma zona maldita. Na tarde de 12 de junho, o desportista e advogado Amilar Vieira Filho, 83, foi assassinado com um disparo no peito por três bandidos que promoviam um arrastão. Em janeiro, 33 ingleses foram assaltados na descida para o Aterro do Flamengo, uma hora após desembarcarem no rio (devem ter levado consigo boas recordações da “Cidade Maravilhosa”). Em novembro de 2007, o ator Francisco Cuoco foi feito refém em seu veículo por três homens que o ameaçaram de morte, mas acabaram soltando-o 20 minutos depois, perto da Barreira do Vasco no bairro de São Cristóvão.  Em setembro de 2007, o Xsara Picasso da esposa do deputado estadual Edmilson Valentim foi interceptado por quatro homens armados e encapuzados, às 15h30min, em plena luz do dia.

O despudor dos marginais é total. Não se intimidam mais com nada. Atacam com o sol a pino; atacam na frente da sede da Polícia Federal. Cospem na cara dos cidadãos. Fuzilam policiais. Matam mulheres e crianças a sangue frio. Como cães danados, aterrorizam tudo e a todos. No filme The Dark Knight, em cartaz, a personagem de Heath Ledger, refletindo sobre sua essência, anuncia-se como um “agente do caos”. A impressão que tenho é que o Rio virou uma imensa Gotan City, sem Batman e com muitos Coringas.

Enquanto isso, um grupo de advogados e intelectuais dos direitos humanos discute com ardor e protesta com ânimo redobrado contra as algemas que possam vir a ser usadas em Salvatore Alberto Cacciola .

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